“Talvez o maior desafio da comunicação é tentar humanizar os relacionamentos”

Afirma Rafael Castanheira, professor da UCB, acerca da evolução tecnológica e seus efeitos nos processos comunicacionais

Imagem: Maria Cecilia Lima

Por Maria Cecilia Lima

A evolução da tecnologia e dos processos de comunicação é um tema que afeta diretamente os cidadãos independentemente do nicho social em que se encontram. Por isso, muitas instituições realizam eventos que visam debater esse tema e seus desdobramentos. Uma dessas instituições é a Universidade Católica de Brasília (UCB), que promove o Congresso de Economia Criativa e Comunicação (CONECOM). Nesse ano, o evento ocorreu de 4 a 30 de novembro e teve como tema “Travessias Comunicacionais: Tecnologia, Metamorfose e novas perspectivas”. Um dos organizadores, professor doutor Rafael Castanheira, explica mais sobre essa constante evolução.

Qual o significado do tema “Travessias Comunicacionais: Tecnologia, Metamorfose e novas perspectivas”?

Esse ano, de certa forma, com o uso das tecnologias da informação e da comunicação mais estabelecidas e mais sistematizadas depois de dois anos do início da pandemia, a gente buscou esse tema porque ele vem para nos ajudar a pensar como esse uso das tecnologias da informação e da comunicação estão sendo desenvolvidas nas empresas e instituições no sentido de gerar estratégias de gestão mais flexíveis e mais plurais que não estejam necessariamente ligadas à comunicação verticalizada, mas uma comunicação mais horizontalizada no sentido de quebra de hierarquia. A metamorfose é uma transformação radical, mas também há uma continuidade. Então, diferentemente da revolução que há uma quebra com o passado, aqui não. É preciso pensar, nesse atual momento, o que a gente precisa conservar do que a gente vinha fazendo antes e o que a gente precisa abandonar. O termo travessias pressupõe essa passagem que estamos nesse momento de um modelo que precisa ser regenerado.

Tecnologia e mudança são temas de frequente abordagem pelas organizações. Qual a importância da discussão desses assuntos para a sociedade?

É fundamental porque é uma questão de sobrevivência. Veja que as tecnologias não são neutras. Toda tecnologia é criada a partir de interesses e objetivos que podem prejudicar alguns grupos e podem também ajudar alguns grupos. A tecnologia tem que ser sempre recebida e utilizada de maneira muito consciente e crítica seja as tecnologias mais comuns como a crença, o sonho, a dança, que também são tecnologias, uma forma de colocar em prática sistematicamente algumas técnicas, isso é tecnologias modernas.

Qual a importância do profissional de comunicação estar atento às mudanças e atualizar seus conhecimentos de acordo com a evolução?

É fundamental para o profissional de comunicação e para qualquer profissional estar sempre atualizado. Isso é um clichê e é uma verdade. Mais importante que estar atualizado aos novos aspectos técnicos da comunicação, esse profissional deve sempre ter uma formação humana sólida, uma formação de caráter, que vá trazer uma visão mais solidária, mais ética, mais engajada, mais comprometida com as questões contemporâneas.

Como as mudanças na comunicação interligam questões tão distintas entre si como viagens, direitos humanos, pesquisa científica, pessoas com deficiência, gêneros e sexualidades?

A comunicação em si é uma área transdisciplinar por natureza. Então ela acaba relacionando os mais diferentes campos sociais e do conhecimento. Então, em qualquer área do conhecimento, a comunicação estará presente. Ela é inerente. 

Quais são os desafios que essa constante mudança provoca na vida do profissional da comunicação e, também, dos cidadãos?

Talvez o maior desafio da comunicação é tentar humanizar os relacionamentos que estão cada vez mais degradados, seja pelo isolamento social, seja pela intolerância, seja pela não empatia e até apatia que as pessoas têm para com a realidade dos outros.

Quais são as consequências de não estar alinhado a essas mudanças? 

As consequências são as mais negativas. No caso, dificuldade na inserção no mercado de trabalho, a própria dificuldade de comunicação porque a gente vê um analfabetismo digital como talvez um dos principais problemas da modernidade e assola as gerações mais antigas. Então, essa não atualização aos novos processos comunicacionais acarreta, de imediato, a própria limitação do exercício da cidadania.

Por outro lado, quais são os benefícios dessa mudança para o profissional ou para o cidadão?

Eu acho que o benefício é justamente a facilidade que as tecnologias da evolução da comunicação proporcionam para facilitar a aproximação das pessoas na troca de ideias. Um exemplo muito importante é a questão dos influenciadores que só conseguem nos influenciar por meio dessas tecnologias. Acabou expandindo exponencialmente o nosso campo de visão, nossas possibilidades de realização a partir da visão dessas pessoas que antes não chegavam até nós. Isso é um ponto positivo, eu acho, porque acaba alargando as fronteiras da imaginação, das possibilidades de ser, de estar, de existir muito além do que a gente conseguia enxergar. Ao conhecermos essas novas realidades de vida, a gente passa também a respeitá-las.

Na sua opinião, a pessoa, como simples cidadão, precisa correr atrás de se manter atualizada sobre os meios de comunicação e todas as questões relacionadas a isso ou essa atualização acontece de forma natural e espontânea?

Eu acredito que as duas formas porque os sistemas comunicacionais modernos estão buscando desenvolver plataformas intuitivas que ajudam as próprias pessoas a entenderem o uso dessas tecnologias. As pessoas, muitas das vezes, conseguem sozinhas se atualizarem pelo uso constante dessas novas ferramentas. Mas é verdade que as atualizações às vezes precisam passar por um processo pedagógico para que as pessoas consigam acompanhar as mudanças.

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