Projetos sociais buscam fazer diferença no quadrado

 Desde a venda de revistas a doações de cestas básicas, ações sociais no DF intensificam apoio a pessoas em situação de rua

Imagem: CNN Brasil

Por Amanda Queiroz

Sabemos que os estereótipos limitam indivíduos em situação de rua e que ainda existem pessoas com receio de se aproximar ou conversar com quem não tem onde morar. A verdade é que, a falta de voz e a pouca visibilidade de quem vive na rua contribuem para esse preconceito.

Com o Brasil de volta ao mapa da fome e com os impactos da pandemia, a Revista Traços e o projeto BSB Invisível são algumas das ações que ocorrem na Capital  que buscam a reinserção desses indivíduos na sociedade, fazendo com que  as ruas do DF se tornem um local com menos pessoas em situação de vulnerabilidade.

REVISTA TRAÇOS

Na década de 70, surgiu em Londres a empresa ‘The Big Seal’ que passou a comercializar os street papers, ou seja, papéis de rua. Logo após, foi criada uma instituição internacional, a International Networking Street Papers (INSP), que regulamentou 120 street papers pelo mundo, enquanto no Brasil, são apenas 5. Ao passo que desejavam informar a população sobre iniciativas culturais na cidade e auxiliar as pessoas em situação de rua, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, três sócios fundadores associados ao INSP, fundaram a Revista Traços em Brasília. 

Imagem: Metrópoles

Desde a sua fundação há 6 anos, a revista busca retratar a produção cultural e apresenta um conjunto de colunas que falam sobre arte, música, fotografia e poesia. A distribuição do editorial ocorre, principalmente, no Plano Piloto, Águas Claras, alguns pontos do Lago Sul e do Sudoeste. O objetivo do projeto é proporcionar geração de renda e ganho de autonomia a pessoas em extrema vulnerabilidade social e/ou financeira. 

Atualmente, o projeto conta com 41 porta vozes. Entretanto, esse número altera diariamente, visto que muitos conseguem se inserir no mercado de trabalho. Desde o surgimento da Traços, já passaram 394 porta-vozes pela revista, sendo que 180 retornaram para o mercado formal ou informal. É uma média de uma pessoa por uma semana e meia, que sai da situação de rua ou extrema miséria e retoma sua vida em sociedade por meio do trabalho da Traços. 

“Nós acreditamos que a cultura pode ser esse motor de transformação social que vai ajudar pessoas em situação de rua a ter um produto de qualidade rentável, para que ele possa vender e restabelecer a vida dele”, afirmou a coordenadora social do Projeto, Hellen Carvalho.

Imagem: G1

Em conjunto com o sistema socioassistencial, a Traços busca indivíduos em situação de rua para fazer parte da ação. Ao participar do projeto, a pessoa concorda com o código de conduta e aceita seguir as obrigatoriedades descritas no regulamento. Com o direito a treinamento de como vender a revista e do que é ser um porta-voz da Cultura, o participante recebe um colete de identificação e as 20 primeiras revistas para que ele comece o seu ciclo de geração de renda. Em seguida, é inserido em um ponto de venda.

Para a renovação do ciclo de vendas, o colaborador se dirige até o escritório da Traços e compra a revista a R$3 reais e vende a R$10 reais, sendo que R$7 reais automaticamente ficam para ele. Dessa forma, as 20 primeiras revistas ele ganha e faz os seus primeiros R$200 reais. Desse valor, ele emprega novamente o quanto desejar. Ressalta-se que ele não tem necessariamente uma meta, pois não é um empregado da revista, mas um abarcado pelo  projeto.

“É um índice de 70% de lucratividade sobre o valor total do produto. Nós competimos diretamente com o tráfico, rendemos mais do que venda de drogas, exatamente por ter esse modelo”, afirmou a coordenadora.

Imagem: Agência Brasília

Em busca de oferecer todo o suporte necessário, a revista oferece ainda um acompanhamento psicossocial ativo, em que o participante recebe um planejamento de vida e outro financeiro.

 “Ele passa a ter um ganho de autonomia mês a mês e começa a cumprir o que nós chamamos de “jornada do porta-voz”, que é a escalada para independência financeira e o retorno social para que ele não precise mais do projeto”, esclareceu Hellen.

A ação tem como maior objetivo fazer com que a pessoa em situação de rua retome ao seu lugar na sociedade e não precise mais ser um vendedor da revista. 

BSB INVISÍVEL

Com a ideia de diminuir a invisibilidade social dessa população, o projeto BSB Invisível, fundado em 2018 pela jornalista Maria Cardí, conta com uma equipe de 12 voluntários e atua, pelas redes sociais, com o intuito de oferecer um espaço e esperança para a voz dessas pessoas que muitas vezes são silenciadas pela sociedade.

Imagem: BSB Invisível

“É difícil que essas pessoas tenham a autonomia de si mesmas, e foi mais ou menos assim que surgiu o BSB, por esse incômodo que eu tinha há muitos e muitos anos, e sentia que precisava fazer alguma coisa para de fato mudar essa concepção”, declarou Maria.  

Segundo Maria, os voluntários do projeto abordam pessoas em situação de rua na Capital e estabelecem uma conversa com elas. Os depoimentos são gravados. Neles, as pessoas contam sobre o dia a dia, a história de vida ou a ajuda que necessitam. Logo após, os vídeos são divulgados no Instagram, com a finalidade de conseguir apoio. Com a divulgação e as doações da população, o projeto faz a intermediação da ajuda recebida para o indivíduo em situação de rua que precisa de auxílio.

Imagem: BSB Invisível

A assistente social, Bruna Martins, responsável pela área da saúde e assistência social, está no projeto há dois anos e relatou como é fazer parte dessa iniciativa.

“Tem sido uma experiência muito gratificante, o fato de você acordar e fazer algo diferente no mundo, sentir que você tá contribuindo um pouquinho, fazendo seu papel, a gente se sente completamente renovada. Esse projeto faz muito essa parte de mostrar que as pessoas estão aí, que elas existem”.

Sem nenhum vínculo governamental ou religioso, o projeto se mantém por meio de doações. 

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