Evento organizado por ONG avalia os modais no DF

A flexibilização das medidas sanitárias retorna com o fluxo usual anterior à pandemia, aumentando a exposição ao risco para usuários da mobilidade ativa no DF. 

Por: Raphaela Peixoto

A ONG “Rodas da Paz”, uma organização que atua junto ao Distrito Federal e incentiva o cicloativismo, mobilidade sustentável e ativa, realizou a 13ª edição do “Desafio Intermodal”, com o intuito de avaliar os modais que circulam nas vias distritais, consequentemente, a mobilidade urbana do Distrito Federal.

O evento foi marcado pela retomada da circulação de carros nas ruas. De acordo com o levantamento divulgado pelo Departamento de Trânsito (Detran), em março deste ano, início das flexibilizações, foram registrados 1.898.423 veículos se deslocando nas vias distritais; no ano passado esse número era 1.855.555.

Paralelo a esse aumento, foram registradas seis mortes de ciclistas até setembro deste ano, uma redução de 40% no número de óbitos comparado com o mesmo período do ano passado, que registrou dez mortes. Mesmo com essa diminuição, o coordenador de finanças da “Rodas da Paz”, Guilherme Queiroz, mestre em Gestão Pública pela Universidade Técnica de Berlim e servidor de carreira do Itamaraty, afirma que são necessárias políticas públicas que garantam mais segurança para os ciclistas e pedestres. Ele ressaltou sua experiência no Desafio Intermodal e evidenciou a realidade da mobilidade urbana, vivenciada diariamente.

Quais são os impactos da retomada dos automóveis nas vias para o ciclista?

Em 2021, o número de pessoas na rua já aumentou, tem muita gente que já voltou a uma certa normalidade de trabalho presencial e, nesse sentido, a mobilidade para o ciclista costuma ser prejudicada. Não temos dados para comparar, porque foi a primeira vez que isso aconteceu, mas o maior número de carros na rua sempre representa uma dificuldade maior para o ciclista. Em vias rápidas, o número elevado de carros afeta o comportamento dos ciclistas, mas isso não é tão significativo para o ciclista que pedala nas vias mais lentas, que pega uma ciclovia, de vez em quando uma calçada e, eventualmente, também a pista.

Embasado na 13ª edição do Desafio Intermodal, quais as principais mudanças na mobilidade urbana do DF durante a pandemia?

Dessa vez, a gente não teve como avaliar o deslocamento do cadeirante. Isso para nós é muito caro. A ONG não foca só nos ciclistas. Entende-se que no trânsito o maior protege o menor e, nesse sentido, o mais prejudicado parece ser, para nós, a pessoa com dificuldade de mobilidade. Por isso, o cadeirante que sempre participa, nem compareceu, porque a gente tem tido em Brasília uma dificuldade de acesso aos ônibus. Os cadeirantes não têm conseguido acessar os elevadores dos ônibus, pois estão quebrados.

Qual é a sua opinião sobre a acessibilidade nos modais coletivos do Distrito Federal? Com a pandemia, ela decaiu?

Eu não consigo dizer se é circunstancial ou se é mais recorrente, que estão sem funcionar [caso de alguns elevadores para cadeirantes estarem quebrados]. Mas entendo que essa situação é inadmissível! A estação de metrô na 110 sul, a escada rolante e o elevador estão sem funcionar, evidenciando a imobilidade do idoso, do cadeirante, da mãe com carrinho de bebê, uma pessoa com muletas. Então, circunstancial ou não, a “Rodas” repudia e o resultado do Desafio Intermodal de 2021 é uma denúncia do descaso com uma pessoa com mobilidade reduzida.

Qual a sua avaliação sobre a atuação do governo Ibaneis na mobilidade urbana?

O atual governo tem algumas ações que são interessantes, só que a mentalidade rodoviarista, que prioriza os carros em detrimento da bicicleta e do pedestre, é muito presente, o que é contrário e prejudicial à mobilidade sustentável. Esse favorecimento aos carros é visto [pela ONG] como uma agressão, dada a uma maior exposição dos usuários dos modais ativos. Um exemplo é onde eu passei no desafio, exatamente na EPIG. Ali é muito ruim a conexão de ciclovia com a pista, com a calçada. Já arrancaram várias árvores para expandir a pista, fazendo um viaduto no local. Já é ruim do jeito que é, com o viaduto ali terão que construir mais passarelas, aumentando o deslocamento do pedestre e do ciclista, e isso prejudica a locomoção para ambos.

Deslocando-se entre Brasília e as outras regiões administrativas do DF, como foi o caso do Desafio Intermodal, que saiu do Guará até o Museu da República (Brasília), percebe-se uma discrepância no que diz respeito à mobilidade entre essas cidades. O que motiva a mesma?

Os acadêmicos que estudam a arquitetura de Brasília, a partir de um ponto de vista sociológico, dizem que ela foi feita sobre uma desigualdade socioespacial intencional. Na origem de Taguatinga e do Gama, as primeiras cidades, que na época eram chamadas de cidades satélites, foram inauguradas para que a pessoa viesse trabalhar e depois retornar para as mesmas, inclusive, nesse sentido, o trânsito de Brasília é altamente pendular. Do ponto de vista do planejamento das ciclovias, se você olhar, principalmente no governo Agnelo, primeiro “boom” das ciclovias no DF, elas privilegiavam muito também o Plano Piloto, que já é bastante privilegiado e tem as melhores instalações.[…] Dentro de algumas regiões administrativas como no Guará, você também consegue desfrutar de uma qualidade. Porém, esse deslocamento entre as regiões administrativas é muito inóspito, desagradável. Para a mobilidade ativa é pior ainda.

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