“A falta de leitura é o esquecimento de um povo”, afirma a coordenadora de bibliotecas Nilva Belo.

 A escritora Nilva Belo conta como  ler transformou sua trajetória profissional, pessoal e como isso interferiu na vida de seus alunos

Por Glenielle Alves

A professora e escritora de Alexânia, cidade à 91.7 km de Brasília, Nilva Belo de Morais  (45), está desde 2008 com o projeto social  “Carroça da Leitura Leiturega”, parceria com a Mala do Livro do GDF, responsável por levar leitura a todos. “Foi esse projeto que me deu visibilidade e que, a cada dia, me envolvo mais com a literatura e a difusão do conhecimento”, contou. Nilva  atua há 4 anos como diretora de leitura de Alexânia que se tornou referência em políticas públicas na área. Além disso,  faz parte da Federação de Teatro de Goiás (FETEG) e da Academia de Águas Lindescenses de Letras.

Qual sua primeira memória afetiva quando se trata da leitura? Algum livro em específico?

A minha primeira memória afetiva, a respeito da leitura, é do meu pai. Ele é analfabeto , não escreve nem o primeiro nome. Mas ele contava a história da “Cidade de Biribi, morro de velho e nunca posso ir” todas as noites no rancho Beira Chão. Então, eu até pensava que se existisse  a cidade de Biribi, teria algum lugar fora daqui. Um dia irei à cidade de Biribi. Penso que essa contação de história na minha infância, uma infância sofrida, aguçou a minha imaginação. Quando eu tinha 14 anos, o José Roberto Rocha Bastos me deu o meu primeiro livro “Meu pé de laranja Lima”. Esse foi o livro que me envolveu nesse mundo mágico da leitura e a busca do conhecimento.

O que a leitura significa para você e como ela influenciou sua carreira profissional?

A leitura significa minha liberdade para atuar no viver. A leitura desenvolveu a minha sensibilidade, senso crítico, a maneira de ver o mundo, como me relacionar com as pessoas, como enxergar a minha cultura e identidade. Na minha carreira profissional,  o livro foi o meu passaporte favorito, porque nasci aqui no distrito de Olhos D’Água, morei em um rancho naquela pobreza extrema e vi no livro a chance de crescer como pessoa e na carreira. Então, ela foi essencial na minha vida pessoal e profissional.

Como foi o processo de desenvolvimento dos projetos que incentivam a inserção de crianças e adolescentes nas bibliotecas municipais?

Em 2017, fui convidada para desenvolver um trabalho nas bibliotecas públicas municipais de Alexania. Só que a biblioteca estava fechada há dois anos e não existia biblioteca no distrito de Olhos D’Água. O prefeito me convidou para ser coordenadora de livro e leitura e me deu autonomia para iniciar. Então, o primeiro passo foi institucionalizar legalmente as bibliotecas, ou seja, reabrir a biblioteca de Alexânia, mudar o nome – que estava errado-, criar a biblioteca de olhos D’Água e buscar parcerias. O segundo passo foi criar ideias e atrativos para chamar o leitor, porque a biblioteca do século XXI não é só um balcão de empréstimos de livros… é preciso desenvolver projetos, cursos e oficinas. Foi um trabalho árduo.

De onde surgiu a ideia da Carroça da Leitura, por exemplo, e quantas pessoas já foram beneficiadas por essa iniciativa?

A ideia da carroça da leitura surgiu em 2008. Estava na feira do troca (Olhos D´Água) e a diretora da “Mala do Livro”, Maria José, perguntou ao Roberto – quem deu meu primeiro livro “Meu pé de laranja lima”-…..‘Roberto, queria uma pessoa leitora e militante do livro que pudesse ser agente de leitura do programa Mala do Livro’ e cá estou. Ela, a diretora Maria José, me perguntou: ‘Se eu te desse uma mala do livro, o que você faria?’. Eu, em tom de brincadeira, disse que colocaria em uma carroça, colocaria óculos escuros e, em uma égua, iria para a praça. Foram reunindo crianças, adultos e patrocinadores. Graças ao “Leiturega” conheci o México, Panamá e Peru. As várias pessoas que passaram pela Carroça é que me motivam a lutar mais em prol da difusão do conhecimento.

Na era digital, como resgatar o clássico  livro?

Na era digital com todos os aparatos tecnológicos, aplicativos de leitura e tudo … o livro é a maior invenção humana. O livro impresso ainda é um ouro da sociedade, então temos que criar mecanismos para levá-lo de geração a geração. Eu luto muito para levar a leitura do livro impresso, tentar mostrar a importância de ler mesmo e pegar o livro. Nada contra quem gosta de ler livros digitais- ebook- … o importante é ler, mas pela experiência que tenho de leitura… indico o livro impresso.

O que é uma sociedade sem leitura- repertório e quais suas consequências?

Uma sociedade sem leitura, infelizmente, é lastimável. Pois o ser humano sem conhecimento e sem capacidade de interpretar sua realidade é um ser prejudicado. As pessoas não sabem lutar pelos seus direitos e exercer a cidadania participativa. Todas as mudanças de uma sociedade não estão nas instituições democráticas, elas estão na capacidade de luta da sociedade. Logo, a falta de leitura, além de colocar a pessoa às margens do sistema, é o esquecimento de um povo e atrapalha o desenvolvimento coletivo. Isso é muito sério.

Há novos projetos nesse aspecto? 

Temos vários projetos para 2022 na coordenação de leitura. Tem o projeto do livro humano que será lançado em novembro como maneira de valorizar as histórias pessoais de pioneiros. Terá a primeira feira do livro de Alexânia; a “blitz” literária que iremos às ruas para apresentar livros e poesias; a feira do troca literária no dia 17 de fevereiro de 2022 que já é tradicional do distrito; biblioteca itinerante que irá alcançar as pessoas que vivem mais longe do município. Além das atividades mensais que visam o ensino como aulas para concursos e ENEM.

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