Dia do Evangélico: consensos e dissensos

Arquivo Pessoal.

Por Vívian Tavares

Hoje,  30 de novembro, é comemorado o Dia do Evangélico. O projeto de lei proposto em 1995 estabeleceu a data como feriado no Distrito Federal, mas esse pensamento se ramificou e vários estados e municípios passaram a comemorar o momento. Existem diversos feriados religiosos durante o ano, entre eles alguns facultativos. O consultor da Câmara e Presbítero da Igreja Presbiteriana Bethesda, Francisco Lúcio, fala um pouco sobre o feriado e porque ele deveria ser revogado.

Como surgiu essa  iniciativa de celebrar o Dia do Evangélico?

Esse projeto de lei foi proposto por um deputado, Carlos Xavier, que originalmente era um servidor público e virou um deputado distrital. Os deputados, na maioria das vezes, não são muito criteriosos com o que vai se propor no legislativo, eles precisam agradar pessoas e eu acho que ele queria agradar os evangélicos com essa proposição. É uma pessoa que no seu histórico tem alguns problemas, foi cassado, foi condenado na justiça (…) e a gente sabe quais são os frutos daquele que propôs essa lei aí, né? Mas não é exatamente isso que deve ser a nossa base para analisar o conteúdo do projeto que acabou criando esse chamado dia do evangélico.

Esta é uma data importante para o reconhecimento dos evangélicos?

O que eu devo dizer a você é que olhando para o evangelho na vida, a gente precisa saber que toda honra e glória só podem ser dada única e exclusivamente ao nosso senhor (…). Sendo assim, não há de se ter reconhecido nenhum atributo vantajoso pelo fato de uma pessoa ser evangélica. (…) Então assim, o dia do evangélico tem criado, até para os próprios evangélicos, um constrangimento muito grande, porque de um lado muitos criticam a quantidade enorme de feriados que nós temos no Brasil enaltecendo aqueles que não são o próprio Deus, ou seja, como vamos admitir que haja um dia que glorifica o fato de ser evangélico. E cobra-se o seu preço a ver esse tipo de situação, né? De glorificação daquele que não devia ter glória nenhuma, e aí há uma grande de ridicularização nesse sentido. 

O que o senhor acha sobre a revogação deste feriado?

Existem algumas iniciativas de revogação dessa lei mesmo, sobretudo por parte de partidos de esquerda. Tem um deputado do PDT, por exemplo, que entrou com um projeto para revogar esta data e disse que deveria ocorrer porque o estado é laico. Com isso, as coisas vão só piorando, querem revogar um feriado alegando o motivo errado. O estado laico, inclusive, iniciou-se e se viabilizou com a reforma protestante, onde também com um grande pecado a igreja se assenhorou do poder por ganância, e aí o estado se confundia com a própria igreja. E é na reforma protestante que vem esse conceito de estado laico, em que o estado não deve ser mandado por uma instituição de homens chamada igreja X ou Y. Deveria ser revogado, mas pelos motivos certos.

A partir disso, o que poderia ser feito?

Acho que aqueles que verdadeiramente conhecem a Cristo e que são evangélicos não porque se auto intitulam evangélicos, mas que conhecem da palavra, deveriam sim propor a revogação desse dia do evangélico, mas não porque o estado é laico. Talvez um projeto de lei por parte de um deputado evangélico, que queira revogar e diga que não é porque o estado é laico e sim porque não se deve dar glória a homens, mas somente a Deus, talvez assim esse seja um

instrumento evangelístico. Isso talvez chamaria mais atenção e traria mais reconhecimento, talvez trariam pessoas para igreja e mostraria que o evangelho não quer o enaltecimento de homens, mas quer efetivamente reconciliar o homem com Deus. 

Você acha então que este feriado não traz nenhum tipo de influência para as pessoas?

Ao contrário, traz uma aversão. Por que o evangélico é melhor que as outras pessoas? Cadê o dia dos ateus? Cadê o dia dos católicos? Cadê o dia de kardecistas? Não faz o menor sentido, e que as pessoas saibam que isso é ridículo frente a palavra de Deus. Porque olhando pelos olhos dos homens aquele que tiver mais representante lá na Câmara que crie o seu feriado. 

Tem uma iniciativa na Câmara para torná-lo nacional, isso traria mais benefícios?

Sim, tem essa iniciativa na Câmara Federal para torná-lo nacional mesmo e isso é terrível, isso é contra todos os princípios que advêm da palavra do senhor. Nenhuma honra, nenhuma glória devem ser dadas a uma pessoa, a grupos e devíamos ser nós mesmos, os primeiros a se opor. Se há algum motivo para se criticar a existência de tantos feriados, por exemplo, que veneram Santos que não são o próprio Deus, porque é que nós nos vamos dar a oportunidade de ter esse vexame. 

Em outubro, celebrou-se o Dia da Reforma Protestante.  Por que ter o Dia do Evangélico se já existe essa outra data?  

Tem o dia de comemoração da reforma, de uma data, mas não tem esse condão de ser ponto facultativo. Então, acaba que o do evangélico é um feriado que fica meio perdido, ninguém entende e só gera confusão. Existem feriados, existem datas comemorativas que são assim, eles não têm consequência na vida cotidiana das pessoas. O de Brasília é um misto, ele é um ponto facultativo e não manda fechar o comércio. Ele dá um ponto facultativo ali no serviço público, aí as escolas particulares também acompanham porque todo mundo gosta de feriado, mas isso tem consequências ruins. Mas observe, teve uma lei em Rondônia que foi aprovada dando feriado mesmo, de parar tudo. E aí a associação do comércio lá de Rondônia conseguiu, no STF, dizer que isso era inconstitucional e a alegação deles é de que teria reflexo na legislação trabalhista e isso não é competência estadual. Dessa forma, eles conseguiram.

Repare como esse tipo de iniciativa só traz vergonha, aí os caras fazem projeto, aí é derrubado no STF, mas o que aparece nas manchetes sobre a decisão do STF não é o fundamento jurídico da questão, e sim que o dia do evangélico é inconstitucional. 

Feriado pode existir por qualquer motivo, até contra a própria palavra como esse do evangélico que aqui em Brasília é um ponto facultativo. Dessa forma, o pessoal abre, não abre, troca ou não troca as datas e só gera bagunça, precisando ser revogado pelas razões que eu já lhe disse.

Como as igrejas comemoram o dia do evangélico? 

Aqui na Igreja Presbiteriana Bethesda não é nem citado, não tem nada e se houvesse seria errado.

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