Brasil começa a traçar caminhos em direção à educação financeira dos jovens

Por Áurea Batista

Entre 20 países, o Brasil está em 17º lugar no resultado da última edição do PISA (Programme for International Student Assessment), ocorrida em 2018. A pesquisa avalia as habilidades de participação econômica e social de estudantes ao redor do mundo. São analisados os conhecimentos de jovens de 15 anos sobre matemática, ciências, pensamento criativo e habilidades de leitura. Os conteúdos também cobrem assuntos relacionados à educação financeira, como dinheiro, transações, planejamento, manejo das finanças e risco e recompensa em investimentos.

Os dados revelam que, em matérias de leitura, matemática e ciências, estudantes brasileiros pontuaram abaixo da média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, a família é a principal fonte de aprendizado desses jovens sobre finanças (89,8%). Em segundo lugar vem a internet; em terceiro, a televisão ou o rádio; e em quarto, os professores. 

Desde 2017, a educação financeira faz parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como tema interdisciplinar integrado às disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Geografia e História. Nesse cenário, o Ministério da Educação (MEC), em parceria com a Comissão de Valores Imobiliários (CVM), lançou o Programa Educação Financeira na Escola. O programa oferece cursos para professores do 9º ano do Ensino Fundamental e 1º ano do Médio.  

A pesquisa internacional da OCDE “Adult Financial Literacy Competencies”, de 2016, mostra que, de forma geral, os brasileiros têm baixo grau de instrução financeira. Então, além de ampliar o conhecimento entre os estudantes, a capacitação de professores visa instruí-los como consumidores e investidores. Ao mesmo tempo, 2021 é o segundo ano do Programa Aprender Valor, do Banco Central, que pretende incluir a educação financeira no ensino fundamental das escolas públicas do País. 

Matheus Paiva

Segundo o professor de Economia Matheus Silva de Paiva, coordenador da graduação em Ciências Econômicas da Universidade Católica de Brasília (UCB), a capacitação dos profissionais de educação é um dos maiores desafios para a melhoria da educação financeira no Brasil. 

Quais são os desafios de se implementar a educação financeira nas escolas públicas e privadas do Brasil?

Acho que o primeiro grande desafio é a capacitação dos professores. Poucas pessoas no Brasil têm conhecimento sobre educação financeira. Esta falta de conhecimento repercute no nível de renda per capita do Brasil. O segundo grande desafio é criar um interesse nos adolescentes e jovens sobre o tema de educação financeira porque, à primeira vista, pode parecer um tema pouco interessante.

Qual é a importância da educação financeira para crianças e jovens, especialmente no Brasil?

A educação financeira é uma grande aliada para o sucesso profissional, porque de nada adianta a pessoa ganhar um bom salário e viver atolada em dívidas e juros. A educação financeira ajuda a reconhecer o valor do dinheiro, a saber se é melhor fazer uma compra à vista ou a prazo, como saber usar o crédito de maneira inteligente, por quanto tempo devemos guardar um dinheiro para comprar alguma coisa e saber como ele pode trabalhar para você.

Quais são os benefícios dessa educação quanto ao desenvolvimento do país?

Nenhum país se desenvolve sem a educação financeira do seu povo. Sem um conhecimento adequado de finanças, as famílias dificilmente conseguem prosperar, porque acabam sendo levadas pelos apelos de marketing a um consumo destemperado, ocasionando muitas vezes em endividamento excessivo e prolongado. Esse endividamento pode gerar diversos problemas, pois compromete parte significativa da renda familiar, dificultando o pagamento de boas escolas para os filhos, por exemplo. 

Culturalmente, os brasileiros veem assuntos de finanças e economia como chatos ou muito complicados. Então, como introduzir esses temas de maneira interessante nas escolas para que eles alcancem a esfera prática da vida dos jovens?

Essa é uma questão muito boa. Acho que uma abordagem mais próxima da realidade dos estudantes poderia despertar o interesse. Penso isso porque depois que eles entenderem a importância de educação financeira para eles comprarem aquilo que mais desejam, certamente irão se dedicar e prestar bastante atenção ao conteúdo. Imagino que se trouxerem exemplos do dia-a-dia dos estudantes será muito bem recebido pelos alunos. Penso que o segredo está em capturar a atenção deles, pois, assim que perceberem o quão rico é este assunto, com certeza mudarão suas visões sobre o dinheiro e sobre o endividamento.

Como você avalia o programa do MEC para capacitação de professores e a iniciativa do Banco Central?

Acho que o esforço que o MEC e o Banco Central estão fazendo para levar este tipo de conhecimento para todos os alunos é algo muito positivo. Talvez venhamos colher bons frutos já nas próximas gerações.

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