Mare of Easttown: produção da HBO se sobressai na direção de arte, mas deixa a desejar no encerramento da narrativa

Por Áurea Batista

O prêmio do Emmy de melhor direção de arte em série contemporânea ou de fantasia (câmera única) ficou com a minissérie Mare of Easttown, produzida pela HBO. Com direção de Gavin O’Connor e criação de Brad Ingelsby, a produção tem sete episódios de mais ou menos uma hora, e apresenta um enredo que gira em torno de Mare Sheehan (Kate Winslet), única detetive da pequena cidade de Easttown, na Filadélfia, Estados Unidos. 

Logo percebe-se que Mare é pressionada tanto por problemas familiares quanto pela opinião pública a respeito de seu trabalho, visto que em um ano ela não resolveu o caso do desaparecimento de uma jovem da cidade. Kate interpreta fielmente uma mulher dura e dedicada, por vezes até demais, à vida profissional, enquanto lida com feridas ainda abertas deixadas por problemas familiares.

Para somar às dificuldades do desaparecimento não resolvido, a jovem Erin (Cailee Spaeny) é misteriosamente assassinada. Então Mare se vê pressionada por mais esse caso. Portanto, seu superior, Chief Carter (John Douglas Thompson), aciona outro detetive para ir à cidade auxiliá-la nas investigações. Mais jovem e reconhecido pela resolução de um crime complexo, Colin Zabel (Evan Peters) se depara com o desafio de conquistar a confiança de Mare, policial mais experiente e inicialmente relutante em ter um parceiro de trabalho.

Em grande parte, a narrativa se desenvolve do ponto de vista de Mare, ao passo que revela aos espectadores as informações que ela progressivamente descobre sobre os crimes. Ao mesmo tempo, acontecimentos pontuais compõem a narrativa a fim de evidenciar aspectos particulares dos personagens secundários. Isso dá à história tom de naturalidade e realismo, apesar dos eventos caóticos que Mare enfrenta, pois coloca em cena a família, os vizinhos e as relações interpessoais do dia a dia.

O desenrolar dos episódios também expõe cada vez mais o lado emocional da protagonista, seu passado e seus sentimentos. Enquanto ela apresenta uma postura direta e rígida para os moradores da cidade, também tem seus conflitos internos e traumas, como qualquer ser humano. Na abordagem da questão psicológica, vale destacar que a minissérie tratou com seriedade o ato de fazer terapia: como um processo de autoconhecimento conduzido por profissional para o bem da saúde mental do indivíduo.

Na reta final, tudo se encaminha na direção do êxito. Os casos estão aparentemente resolvidos e Mare lida melhor com acontecimentos passados e presentes que afetam a estabilidade de sua família. Ela mora com sua mãe idosa, filha adolescente e neto ainda criança. No entanto, surgem inconsistências nas provas e nos relatos do crime de assassinato, o que deixa a detetive inquieta.

Poderia ter sido mantida a conclusão de que o culpado era de fato quem a narrativa apontou ser. Ele já não era óbvio e fundamentou toda a complexidade da investigação, envolvente o suficiente para prender os espectadores na frente da tela. Mas, infelizmente, numa tentativa de incrementar o mistério, dando uma reviravolta no enredo, a culpa do assassinato é drasticamente reposicionada.

A produção falha em construir motivo e contexto razoáveis para atribuir a culpa a outro personagem. Fez falta uma estruturação tão consistente da sequência de acontecimentos que levou ao assassinato quanto houve para o suposto culpado anterior. Boa parte do aspecto realista da narrativa se perde no fim, mas ela mantém a complexidade da história e apresenta como cada personagem leva parte da responsabilidade pelo que ocorreu. Como na vida real, as ações das pessoas retratadas se interligam e se influenciam.

Apesar da mudança na conclusão do crime, grandes componentes da trama fazem valer a pena assistir. A trajetória profissional e pessoal de Mare, a construção sensível dos personagens secundários e, para quem aprecia aspectos técnicos, as inúmeras cenas em primeiro plano, que intensificam a emoção e a dramatização.

Imagem: HBO

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