Impactos ambientais e mudanças climáticas afetam o Distrito Federal

Brasília registrou o inverno mais frio desde o início do século e umidade relativa do ar atinge baixas prejudiciais à saúde.

Imagem: Agência Brasília

Por  Maria Luisa Martins

Três ondas frias atingem cidades e estados brasileiros, que registram suas menores temperaturas durante o inverno de 2021. No sul, municípios presenciaram a chegada da neve e a sensação térmica abaixo de zero. Ao final de junho, a primeira onda atingiu o Distrito Federal e fez com que os termômetros da cidade satélite do Gama marcassem 4,9oC, a menor temperatura do ano e a mais baixa já registrada desde 2002 pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).

Segundo Andrea Ramos, meteorologista do INMET, essas marcas já eram esperadas devido à neutralidade climática a qual o hemisfério sul enfrenta. Isto é, fenômenos como o El Niño e La Niña não ocorrem fazendo com que os sistemas climáticos de cada estação atuem de forma normal.

“No ano passado, nós estávamos no efeito de La Niña, por isso estava muito quente […]” disse Ramos. Ela se refere às marcas registradas pelo INMET para essa mesma época do ano, quando os termômetros registram 36oC e 15% de umidade, temperatura mais alta em 2020 para Brasília. 

Ramos também explica que, para o inverno brasiliense, a amplitude térmica é esperada anualmente. “A amplitude térmica é a diferença entre a temperatura máxima e mínima. Hoje [26 de agosto] foi um exemplo, tivemos mínima de 11oC e [também] se registrou a maior temperatura máxima do dia… chegou a 33,2oC, a maior do ano até então”

Contexto meteorológico

Durante a produção desta matéria, um alerta em vermelho aparece na página principal do site Instituto Nacional de Meteorologia. Perigo. Aviso para a sua região: baixa umidade. Entretanto, em regiões próximas à capital brasileira o alerta torna-se: Perigo: potencial de chuvas intensas. 

O contraste geográfico no Brasil é estudado e acolhido cientificamente. Porém, ao passar das últimas décadas, eventos climáticos têm sido intensificados devido à drástica e já alertada mudança no clima causada por eventos não naturais. 

De acordo com Ramos, eventos raros no verão Canadensse em 2021 e as ondas de calor registradas ano passado no Brasil estão associadas a questões antropogênicas, efeito do homem em relação à diversidade. “Quando você modifica o solo, você proporciona essas questões relacionadas ao extremo”, relata.

Em 2018, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) publicou a pesquisa sobre o perfil dos municípios brasileiros e alertou que, entre 2013 e 2017, mais de 2/3 dos municípios no país registraram eventos de impactos ambientais. Quase metade deste grupo foi resultante de condições climáticas extremas, como secas ou enxurradas.

A estiagem é um fenômeno natural presente no cerrado brasileiro entre os meses de junho e setembro. Esse evento é justificado pela diminuição do volume de chuvas, temperaturas do ar elevadas e umidade baixas. Em julho, o INMET registrou situação de alerta na umidade relativa do ar, com médias entre 21% e 30%. 

Outros fatores alarmantes referem-se ao desmatamento e às queimadas. Só no DF, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 110 focos de incêndio ativos em 2021, até o mês de agosto. A pesquisa mostra um aumento em 22% nas queimadas em comparação com 2020.  

Impacto na saúde da população

O Brasil emitiu em média 2 bilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera só nos últimos três anos, segundo o SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases). A expectativa de pesquisadores do Observatório do Clima, rede de ONGs não governamentais, é que esse número suba ainda mais nos próximos anos devido ao aceleramento no desmatamento florestal.

Ao queimar a vegetação, gases de monóxido de carbono são liberados na atmosfera e contribuem não só para o aquecimento global mas também prejudicam a qualidade do ar. Segundo o pneumologista Alexandre Araruna, esses gases poluentes estão em todo o nosso arredor, seja das pequenas e grandes queimadas a carros e fábricas.

“A inalação de produtos e substâncias tóxicas que vão se depositando gradualmente dentro do trato respiratório podem, dependendo da pessoa, do grau e tempo de exposição, fazer aparecer doenças como a bronquite e tosse, e outras mais complicadas como o câncer de pulmão com a sua justa fatalidade”, relatou Araruna. 

O médico explica que o trato respiratório atua melhor em climas estáveis. A oscilação natural de temperaturas, principalmente nos últimos meses de inverno no Centro-Oeste, faz com que doenças características da temporada apareçam com mais facilidade. Entre elas estão as viroses, como as gripes e resfriados, pneumonias e rinite alérgica.

Segundo a OMS, o nível ideal de umidade relativa do ar é de no mínimo 60%. Entretanto, esta não é a realidade do DF em vários meses ao ano. Entre agosto e outubro a umidade pode chegar na casa dos 10% e a temperatura do ar sobe mais do que nos meses anteriores. O menor nível registrado no DF até agosto foi em Brazlândia no dia 20 de julho, com 13%.

Com o ar pouco úmido, o ressecamento das vias aéreas gera desconforto e pode levar ao despertar de doenças de bases a qual o paciente já pode ser portador, como a asma, bronquite e enfisemas pulmonares. Alexandre Prado, de 47 anos, relata que,  apesar de residir no DF há quase uma década, ainda enfrenta dificuldades com relação ao clima brasiliense.

“[O que mais me afeta] são os cuidados, ter que ficar lembrando de beber água. Por ser seco, a gente não sua tanto como no Rio de Janeiro e outros lugares mais úmidos”, disse Prado. “É bem comum ter o nariz sangrando.[…] até hoje não estou 100% adaptado”,  acrescentou.

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