Entre ensino público e privado: o descompasso do acesso

Estudantes da educação básica representam 18% da população do DF

Foto: Áurea Batista

Por Áurea Batista, Maria Luísa Martins, Vivian Tavares e Raphaela Peixoto.

No Distrito Federal, os estudantes dos níveis fundamental e médio somam aproximadamente 543 mil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, o acesso ao ensino virtual durante a pandemia do novo coronavírus não é igual para todos. [1]  Além disso, a maioria deles (88,9%) têm seus filhos na rede pública de ensino.

            Segundo a Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros (TIC Domicílios 2019), realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), 55% dos domicílios do Centro-Oeste não possuem computador de mesa e 34% não possuem notebook. Quanto ao tipo de conexão à internet, 42% não possuem banda larga fixa.Os números mudam, ainda, de acordo com a classe social: Precisa pensar sempre se esses dados são representativos quando olhamos para o número de estudantes.

Fonte: TIC Domicílios – 2019.

Fonte: ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa – 2019.

Na pesquisa do Sinpro-DF, 26% dos respondentes com filhos matriculados em colégios da Coordenação Regional de Ensino de Samambaia não possuem acesso a dispositivos eletrônicos. Para os estudantes do Centro de Ensino Fundamental 312 (CEF 312), na Samambaia Sul, a internet disponibilizada pelo GDF possui conexão “fraca” e “não ajuda muito”, como relatou a professora Priscila Ângelo Tavares, 39 anos. Disse também que os professores da escola ofereceram alguns equipamentos aos alunos.

Entretanto, há os que não puderam receber e que permanecem com o acesso somente aos materiais impressos da escola e/ou aos conteúdos educativos disponibilizados em canais abertos de televisão pelo Programa Escola em Casa DF. Do 6º ao 9º ano no CEF 312 somam-se 892 alunos dos quais 153 estudam por material impresso. Do segundo para o terceiro bimestre, houve um aumento de 30 alunos neste último material. Uma escola, também em Samambaia, que solicitou não ser identificada, informou que de seus 990 alunos, 393 utilizam a plataforma virtual, 479 utilizam somente o material impresso e 118 não têm nenhum dos dois.

Nas 15 turmas em que Tavares leciona, muitos estudantes estão utilizando a plataforma Google Sala de Aula, mas por trás estão as dificuldades com o equipamento eletrônico ou com a má conexão. “Muitas vezes a mãe sai para trabalhar e o filho só tem o celular da mãe para responder atividades” e acaba “perdendo aulas virtuais. Ou a família só dispõe de 1 aparelho para vários filhos”, informou.

De acordo com o professor Célio da Cunha, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica de Brasília, “o Distrito Federal encontra-se em melhores condições que a maior parte das unidades federadas”, mas há a necessidade de garantir políticas educacionais melhores e continuadas. Além disso, ele afirma que “a pandemia agravou as desigualdades sociais”, e que “para que nenhum estudante fique para trás, é preciso fazer o que poucas escolas no Brasil já fazem, isto é, colocar o estudante na centralidade do processo educativo. ”

Outros estudantes, mesmo utilizando aparelhos digitais, lidam com uma dinâmica de ensino totalmente diferente. A aluna Laís*, do primeiro ano do Ensino Médio do Centro Educacional 06 de Taguatinga, contou que sua escola optou por marcar a presença dos jovens pela entrega de atividades ao invés de aulas online; os professores disponibilizam aulas gravadas. No horário em que ela tinha aulas presenciais, pela manhã, agora recebe as atividades. Além disso, Laís* compartilha o computador com 5 irmãos. Sendo 6 jovens ao todo, eles se dividem em 3 para estudar de manhã e 3 de tarde.

Para além do acesso ou não às tecnologias, o ensino realizado virtualmente é impactado também pelo formato do aparelho o qual o estudante possui. A professora do Colégio Adventista do Gama (CEAG), Tâmella Serra, 29 anos, contou que “os [alunos] que acompanham somente pelo celular acabam sendo mais prejudicados, porque não conseguem acompanhar o conteúdo que está sendo compartilhado na tela, em forma de slide, vídeo [e] imagens”, o que acarreta num menor desempenho. Nas turmas em que ela leciona, há “uma parte [dos estudantes] que acompanha com computador e tablet, mas existe uma grande maioria que fica pelo celular”.

E surgem outras dificuldades, como a limitação nas observações do professor, os problemas de foco dos alunos, devido à mistura dos espaços de casa e de escola; e, para todos, há a necessidade de lidar com a comunicação em chamada de vídeo por várias horas, o que pode causar desconforto e ansiedade, como mostrado nesta análise do New York Times. “Infelizmente, o processo de aprendizagem, nós professores, só conseguimos perceber melhor na modalidade presencial”, relatou Tâmella.

A estudante Júlia*, de 17 anos, cursa o terceiro ano do Ensino Médio no Centro Educacional Leonardo da Vinci e conta com aulas virtuais e gravadas, as quais ela acompanha pelo computador que divide com sua mãe. Porém, ela relatou que a sua maior dificuldade com essa forma de ensino é manter a atenção. Ela lida com as interrupções da irmã e os latidos de seu cachorro. “Não consigo focar”, disse. Contou ainda que sua vida acadêmica foi mais impactada negativamente. “Sinto que [o que nós estamos aprendendo agora] é mais superficial; o tempo de aula mudou e está menor. Todos estão afetados, até os professores não estão bem [com a qualidade das aulas].”

Os métodos que cada instituição de ensino adota na condução das aulas variam bastante entre si. Júlia* contou que assistiu a uma aula virtual em que o professor utilizou um quadro ao invés de imagens na tela do computador, e disse que “ter um ambiente, mesmo que virtual, mais parecido com uma sala de aula faria com que a gente [estudantes] se imergisse de volta no universo da escola presencial. ”

No último ano do Ensino Médio, os estudos para vestibulares e para o Enem se intensificam e, para este aspecto, Júlia menciona que a flexibilização de horários é benéfica para ela, pois permite uma construção de uma rotina própria que privilegia seus estudos para o Enem. No entanto, a pandemia mudou todo o calendário estudantil e isso atrapalhou suas metas já planejadas.

Muitos professores precisaram reinventar seus métodos nesse período. Tavares contou que teve de aprender a utilizar novos recursos tecnológicos em pouco tempo e, que durante o trabalho, sempre tenta ressaltar o vínculo que existe entre ela e seus alunos. Às vezes ela conversa com eles individualmente e aumenta o prazo de entrega de atividades. Por outro lado, Tâmella optou por realizar algumas atividades em forma de jogos com contagem de tempo, classificações e premiações para motivar os estudantes.

Considerados os mais de 500 mil estudantes da Educação Básica no Distrito Federal, o professor Célio da Cunha acredita que o mais urgente é garantir que os estudantes estejam na escola com o máximo de segurança. Isso é também o maior desafio, e precisará de todo o esforço possível para a superação dos efeitos da pandemia e para a manutenção de padrões de qualidade aceitáveis na educação. “Há a necessidade de se construir e pactuar consensos entre os principais atores do processo educativo”, constatou.

Ainda no segundo ano do Ensino Médio no CEAG, Francisco* acredita que todas essas transformações podem prejudicar seu desempenho em futuros vestibulares ou no Enem, por conta de sua adaptação demorada. “Eu (…) fui me acostumar no terceiro bimestre, por aí, quando começou a se normalizar o que estava acontecendo. Então eu acabei perdendo muitos conteúdos”, contou. Ele acompanha suas aulas pelo notebook e não tem problemas com a internet de casa.

Mas, assim como os professores, que não conseguem avaliar o processo de aprendizado da melhor forma, Francisco* disse que uma de suas maiores dificuldades é a falta de contato. Há tendências de que o ensino permaneça híbrido por um tempo. É o que ele mesmo já experiencia. A carga horária de suas aulas online diminuiu por conta dos encontros presenciais no colégio em horários marcados. Ele ainda contou que alguns professores ministram as aulas online desde a sala de aula, mas por vezes a conexão falha e é preciso cancelar as transmissões.

Num cenário em que o presencial e o virtual avançam juntos, a complexidade do desafio aumenta e por isso o professor Célio Cunha destaca que a educação deve estar entre as prioridades do Distrito Federal. É preciso também, defende ele, “que as escolas e seus estudantes possam manter-se em dia com os avanços e inovações do setor [tecnológico], pois são importantes para a melhoria da qualidade do ensino. É indispensável [também] um projeto pedagógico democrático e inclusivo que seja capaz de desenvolver simultaneamente a cidadania e a competência. ”

*Nomes fictícios.

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