A inclusão através do esporte

O lago se tornou berço da cooperação e da independência.

Foto: Mariana Albernaz

Vela Para Todos. Este é o nome do projeto, idealizado pela Federação Brasiliense de Vela Adaptada (FBVA), que há 10 anos, completados em setembro de 2019, tem ajudado pessoas com deficiência através do esporte. Mais especificamente, como o próprio nome diz, a partir do ensino da arte de velejar, atividade realizada pelos alunos todos os sábados de manhã, no Lago Paranoá.

Para as pessoas com deficiência, a prática de atividade física é uma oportunidade de recomeçar, aumentar a autoestima e ter melhor qualidade de vida, porque o exercício contribui para a manutenção da saúde e do bem-estar. Além disso, quem veleja tem a sensação de controle e liberdade, tudo ao mesmo tempo. Isso porque, muitas vezes, é o único momento que elas têm para controlar suas vidas e, ao mesmo tempo, aproveitar a imensidão do Lago, sem pressões ou rótulos da sociedade.

No entanto, existem aqueles que decidem competir. Por esse motivo, órgãos como a FBVA promovem atividades esportivas voltadas para pessoas com algum tipo de deficiência, seja física, intelectual, auditiva ou visual. Além do propósito de ampliar o número de alunos, como é o caso do projeto “Vela Para Todos”, ainda têm a possibilidade de formar novos velejadores, tanto com intuito recreativo, para passeios no Lago Paranoá, quanto com a intenção de formar futuros atletas e paratletas.  

O projeto se mantém financeiramente com o patrocínio do Banco de Brasília (BRB) desde 2016. Além dele, em 2019, a Federação participou do Edital do Instituto Bancorbrás e venceu na escolha feita de projetos sociais. Porém, sempre existem demandas, que dependem de doações por parte dos empresários do DF. Por exemplo, no momento, eles necessitam de um novo cais flutuante para melhor embarcar os alunos deficientes físicos e uma cobertura para que os barcos não permaneçam guardados a céu aberto.

A Secretaria de Estado de Esporte e Lazer do Distrito Federal (SELDF) criou programas como o Bolsa Atleta e o Compete Brasília. O primeiro consiste em um patrocínio individual, de atletas e paratletas de alto rendimento, que obtêm bons resultados em competições nacionais e internacionais de sua modalidade. Ele garante condições mínimas para que se dediquem, com exclusividade e tranquilidade, aos treinamentos e competições, sejam locais, sul-americanas, pan-americanas, mundiais, olímpicas ou paralímpicas.

A Bolsa Atleta, um projeto criado em 2005, é concedida pelo prazo de um ano e o valor mensal depende da classificação dos atletas e dos níveis da modalidade, de acordo com a legislação vigente. O impacto financeiro, segundo o documento da Câmara Legislativa do DF, no ano de 2014, foi de R$ 981 mil. Para entender melhor os critérios e saber mais detalhes, o interessado pode entrar no site da SELDF e acessar o arquivo com as normas e especificações. Inclusive, está aberto o período de indicação dos atletas a serem beneficiados pelo programa no ano de 2020.

Já o programa Compete Brasília, que também tem como objetivo incentivar a participação de atletas e paratletas em campeonatos nacionais e internacionais, concede transporte aéreo (destinos nacionais e/ou internacionais) e/ou transporte terrestre (destinos nacionais). Através dele, 1.447 atletas e 386 técnicos já foram beneficiados, só entre os meses de janeiro e setembro de 2019. Segundo o Diário Oficial do DF, foram gastos, até junho de 2019, R$ 3 milhões com este projeto.

Recentemente aconteceu o Campeonato do Distrito Federal de Vela Adaptada. Oito atletas disputaram a Classe Hansa 2.3 (que consiste na disputa entre os barcos que medem 2,3 metros) pelas categorias feminina, com três velejadores, e a masculina com cinco. Foram realizadas até sete regatas, sendo válido o campeonato após a realização de três delas, e venceu o atleta que obteve o menor número de pontos perdidos, valendo-se todos do descarte do pior resultado.

O campeonato, organizado pela FBVA, apoiado pelo Clube Cultural e Recreativo Nipo-Brasileiro, pela Capital do Remo e pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, tem o patrocínio do BRB e do Instituto Bancorbrás. Além dos troféus para os três primeiros colocados, o evento definiu os vencedores que irão garantir a Bolsa Atleta 2020, do Governo do Distrito Federal (GDF).

Um dos integrantes do Vela Para Todos é Estevão Lopes, advogado e educador físico, que ficou paraplégico após uma bala perdida o atingir em 2012, quando ele tinha 34 anos e saía de uma festa de aniversário no Riacho Fundo. Hoje, com 41, é paratleta renomado, e já defendeu o Brasil em diversos campeonatos. Estevão conheceu o projeto, do qual faz parte desde 2014, através de fisioterapeutas e educadores físicos do Hospital Sarah Kubitschek, um dos parceiros da Federação.

Seu currículo como paratleta é extenso. Estevão é bicampeão brasileiro de vela adaptada, tetracampeão brasiliense da modalidade e, em outubro de 2018, ele ficou entre os 10 melhores do mundo na classe aberta do mundial, em Hiroshima, no Japão. Participando do Campeonato do Distrito Federal de Vela Adaptada, seu objetivo é chegar até a competição brasileira em janeiro de 2020, que será uma seletiva para o campeonato mundial na Califórnia.

Além do projeto, Estevão é sócio fundador da Capital do Remo, juntamente com seu amigo Eduardo Freitas. Juntos, eles construíram, em 2016, a sede da Capital no Clube Nipo, no setor de Clubes Esportivos Sul. A ideia é formar paratletas e ser uma opção de lazer. Após problemas com o local que servia de “central” para o Vela Para Todos, eles cederam o espaço para que ambos os projetos funcionassem ali.

Lá, a Capital possui mais de 50 barcos, comprados por Eduardo e Estevão. Já aqueles utilizados pelo projeto foram doados pela Embaixada da Austrália (14), enquanto alguns outros são do Ministério do Esporte e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que são utilizados para remo olímpico, remo paralímpico, canoagem, paracanoagem, canoa havaiana, SUP e vela adaptada, é claro.

Eles constantemente precisam de pessoas para ajudar com os atletas e a organização, então sempre estão abertos para a comunidade, que podem conhecer o projeto através das redes sociais e da indicação de amigos. Para participar os interessados devem ir até o clube no sábado de manhã e procurar a diretora de voluntários, Dione Tubino. Ela providenciará a inscrição do voluntário e irá orientá-lo para as atividades.

Beatriz Mendes | Foto: Mariana Albernaz

Beatriz Mendes, de 12 anos, é uma das alunas do projeto. Sua mãe, Sâmia Mendes, é jornalista, e seu pai, Flávio Ferreira, funcionário do Banco de Brasília (BRB). Eles conheceram o projeto através de um comunicado interno no Banco, outro parceiro da FBVA. Bia, como prefere ser chamada, começou a velejar com 7 anos e desde então não largou mais o barco. “Uma das coisas que mais gosto quando estou velejando é a sensação de liberdade e o vento no rosto”, afirmou.

Aluno e Mauro Osório, durante aula | Foto: Arquivo pessoal da FBVA

O presidente da Federação, Mauro Osório, diz que velejar é um esporte muito bonito, que possibilita aos praticantes a sensação de independência, já que eles passam a conduzir os barcos. Veja abaixo o que ele tem a dizer sobre:

Oportunidades como essas, proporcionadas pelo Vela Para Todos e pela Capital do Remo, permitem que os deficientes usufruam de uma vida cheia de liberdade. Além do mais, possibilita que eles convivam mais com pessoas não deficientes, as fazendo entender que todos têm as mesmas capacidades. Projetos como esses mostram a importância de mais iniciativas dessa natureza na sociedade, para promover inclusão e prevenir o preconceito.

Por: Mariana Albernaz

One thought on “A inclusão através do esporte

  • 21 de novembro de 2019 em 20:55
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    Realmente muito interessante. Excelente trabalho!

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