Nos passos do charme

Amanda de Castro, Marcus Castro e Mariana Alves

Basta ouvir a batida e assistir a pessoas ensaiando os passos ritmados que a vontade de entrar na dança é quase imediata. Não é apenas a coreografia dançante que chama atenção mas também o fato de ser uma dança coletiva. Todos cabem nesse mutirão e podem dançar a sua própria maneira.

Foi dessa forma que nasceu o baile charme. Entre os seus principais inspiradores estão as festas de soul e funk dos anos de 1970. Influenciado pelo hip hop americano, o R&B contemporâneo e o new jack swing – estilo popular na década de 1980 que misturava vários ritmos ao urban R&B – o charme nasceu nos bairros cariocas na década de 1980.

A crise da soul music, no final do ano de 1976, aconteceu em decorrência do grande sucesso que o “pop rock” começou a fazer na zona norte, entre os jovens brancos e com melhores condições financeiras. Em 1977, a disco music estourou mundialmente não só como um estilo musical, mas como um movimento cultural. No Brasil, o disco também fez muito sucesso entre os jovens, principalmente nos de classes mais altas. O charme se aproveitou do desgaste do soul e do crescimento do disco para crescer como estilo musical diferenciado e ocupar um espaço ocioso no cenário musical.

O termo “charme” foi criado por Corello DJ, no Rio de Janeiro. Na época, a discoteca perdeu a vez para o “pop orientado”, introduzido por gravadoras multinacionais instaladas no Brasil. Corello observou o fenômeno e fez experiências musicais com a vertente da black music.

“Chegou a hora do charminho, transe seu corpo bem devagarinho”. A frase era dita em um determinado momento no baile de disco por Corello. A dança que embalava o soul e o funk carioca tinha um ritmo mais suave e gradual que a disco music. Durante o baile, ficava mais fácil de acompanhar os passos que eram feitos de forma ritmada e coletiva. A frase pegou. O “charme” ficou na cabeça e no corpo das pessoas.

Pioneiro
DJ Celsão, considerado um ícone da black music na capital, foi o responsável por comandar os primeiros bailes em Brasília nos anos 2000. Com o programa de rádio Mix Mania e seu trabalho com a discotecagem, o músico ajudou a espalhar ainda mais a cultura do charme no DF. O DJ faleceu em 2015, mas a mensagem de suas batidas black music não saíram mais das pistas brasilienses.

Netto do Charme, um dos fundadores do grupo Charme em Movimento, acompanhou o surgimento do gênero no DF. Acompanhado pelo DJ Celsão, que agitou muitas festas no Conic, o dançarino relata que o ritmo se espalhou de forma rápida. “Lá a gente só discotecava. Quando lotou, passamos para o Parque da Cidade e a dança pegou”, conta Netto.

“Qualquer pessoa consegue dançar charme”. Reprodução: Facebook do Grupo de Dança Charme em Movimento.

Coletivo
Quem nasce na Ceilândia é Ceilandense. Não por acaso, a cidade carrega a dança na sonoridade da pronúncia. A cultura do hip hop é percebida em grafites, batalhas de rima e música. O charme está exposto às suas próprias influências e isso faz com que ele reverbere seus passos pela cidade.

Alex Bottino, de 21 anos, conheceu o charme há quatro anos quando procurava uma forma de se expressar na arte. Nascido e criado na Ceilândia, deu seus primeiros passos na dança quando conheceu a cia Pegada Black e, a partir daí, não parou mais.

“Vi como aquilo era mágico e não fui egoísta pra poder falar ‘não vou passar isso adiante’, muito pelo contrário, eu tenho que passar isso adiante, eu tenho que expandir isso para outras pessoas e foi através disso que surgiu o grupo Periféricos no Topo”, disse.

“A minha dança tira pessoas da rua e do crime assim como me tirou”. Foto: Marconi Cristino

O Periféricos no Topo surgiu em 2018 com a ideia de movimentar e dar continuidade à cultura do charme na quebrada. O grupo já foi chamado para fazer apresentações em eventos culturais de todo o DF, dando prioridade para as regiões administrativas periféricas. Além disso, a companhia organiza semanalmente um mutirão de dança na Praça da Bíblia, no bairro P Norte, onde quem estiver passando pode ser contagiado pelo ritmo dos passinhos.

“A gente quer pregar o respeito, a gente quer pregar a igualdade, dentro do charme dança os mano, dança as mina, dança as monas, dança quem quiser, é tudo nosso”, afirma Elder Barros, 21, dançarino do Periféricos no Topo. Sempre gostou do hip hop e via seus tios dançando charme desde criança. Era quase impossível fugir da dança. Elder acredita que o charme transcende os pilares da cultura para se tornar uma mensagem, uma ideia.

Para Mariana Evangelista, de 14 anos, também dançarina do Periféricos, o charme une as pessoas e cria uma consciência de identidade. “Eu acho que é extremamente importante porque muitas pessoas não sabem que o charme é uma dança 100% brasileira. Ele é nosso, da periferia, porque nas festas nos bailes quem dançava charme era a gente. É uma dança que é da periferia para a periferia”, conclui.

Ivo Xavier Sousa, coreógrafo e especialista na montagem de apresentações de charme para eventos, acredita no potencial coletivo e pedagógico da dança. “O charme agrega as pessoas. Não tem critério, não tem uma audição. Se você estiver numa festa, vai ter passo que você vai pegar vai ter passo que não, mas o importante é você estar ali”.

“Eu tento adaptar os meus passos as pessoas da minha coreografia”, diz o coreógrafo que dá aula para pessoas da melhor idade. Dançar charme também significa expressar sentimentos a respeito das adversidades cotidianas. As limitações do corpo e da mente não precisam interferir nos passinhos. Cada pessoa dança o charme no seu ritmo, do seu jeito e ao mesmo tempo em conjunto com o grupo.

Os passinhos ajudam a construir uma nova identidade cultural em Brasília. O movimento é alimentado pela nova geração do charme que usa a força da própria história para escrever novas experiências.

A coletividade e a particularidade andam juntas com o charme. Cada pessoa sente a dança de uma forma diferente e esta definição se encaixa nos conceitos de bonito e elegante de um certo funk. A capacidade social, cultural e educativa do gênero ultrapassaram os bailes e se tornaram um estilo de vida para os charmeiros.

Cultura Periférica
O charme tem origem nas periferias do Rio de Janeiro. O baile mais conhecido no Brasil é o que acontece embaixo do viaduto Madureira. O bairro eternizado no samba de Arlindo Cruz, carrega memórias dos primeiros passinhos do charme. A festa é expressão da cultura negra e periférica, pela sua origem e vivência. Ao longo de sua trajetória, a dança ultrapassou barreiras com o pilar da coletividade mas sem perder a sua essência. São mais que movimentos ritmados. O passinho costura um novo tecido cultural.


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