Acessibilidade Negada

“Edna Vieira na associação Movimento Luz – Inclusão para Deficientes Físicos, na qual faz parte há um ano. / Foto: Kesley Pereira

Ainda é cedo quando Edna Vieira decide sair de casa, em Sol Nascente, bairro de Ceilândia. A rua de sua casa não possui pavimentação asfáltica e as calçadas são praticamente inexistentes. Chegar a parada de ônibus é um desafio até mesmo para uma pessoa comum. Para Edna, que é cadeirante há 14 anos devido a um acidente de carro, sair de casa em direção ao ponto de ônibus é praticamente impossível devido aos problemas de infraestrutura, ela precisa da ajuda de algum vizinho ou amigo que se disponha a levá-la até o ponto.

Sobre cadeiras de rodas, Edna viu sua vida transformada. Durante um ano não conseguiu sair de casa, porque sabia que enfrentaria dificuldades. “Eu não saia de casa, não porque eu não tinha ânimo, mas porque sabia que não havia acessibilidade” comenta Edna. Há um ano, Edna faz parte de uma associação chamada Movimento Luz – Inclusão para Deficientes Físicos.

Todos os dias ela precisa se dirigir ao ponto de ônibus, descer no centro de Ceilândia, e andar pelas calçadas para chegar até o local, que fica atrás da Administração da cidade. São cerca de  950 metros do local onde o ônibus para no centro de Ceilândia até o Movimento Luz. À pé, são 12 minutos, porém para um cadeirante esse tempo pode dobrar devido a falta de acessibilidade nas calçadas, que são deterioradas nesse trajeto e, em alguns locais,  inexistentes. Nesse último caso, um cadeirante ou um deficiente com dificuldade motora precisa utilizar a pista para conseguir se locomover entre carros e motos para conseguir chegar ao seu local.

A associação da qual Edna faz parte, chamada Movimento Luz, foi fundada há um ano. Atualmente, já são mais de 300 associados. A luta pela acessibilidade na associação está voltada para a conscientização da sociedade e do governo de que é preciso ouvir os deficientes físicos, “Primeiro, é fundamental que os deficientes conheçam os seus direitos, para depois cobrarmos o governo e a sociedade, e é isso que fazemos” considerou a presidente da associação Francisca Fernandes, conhecida como Neta.

Edna com os membros da associação Movimento Luz / Foto: Kesley Pereira

Distrito Federal não possui atualmente uma secretaria ou departamento específico para tratar sobre acessibilidade para cadeirantes. O órgão que se dispôs a falar para esta reportagem, faz parte da Secretaria de Mobilidade e Transportes. José Paiva, que representa a secretaria em questão, relatou a realidade apenas do transporte público, e disse que “todos os transportes públicos saem da garagem adaptados e organizados para atender cadeirantes”.

A falta de um órgão específico para tratar do assunto no poder executivo do Distrito Federal preocupa os deficientes físicos, principalmente os cadeirantes  que não sabem a quem recorrer quando necessitam de apoio nessa questão, “quando precisamos falar sobre alguma necessidade em acessibilidade para cadeirantes, só podemos recorrer às administrações regionais, é o que temos” disse Neta, em tom de crítica.

Vídeo com imagens que demonstram a falta de acessibilidade na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília.

Mesmo Brasília sendo uma capital planejada, não se pensou na mobilidade para pessoas com deficiência física em sua construção. Pastor Willy, pesquisador na área de transportes da capital na UnB, afirma que “Brasília foi pensada com aspectos de macro acessibilidade relacionada com o uso prioritário de vias para automóvel. Essa parte macro foi consciente, mas a parte de micro acessibilidade, que vem a ser o aspecto de como as pessoas se deslocam pelos vários espaços urbanos, não foi tão premente no sentido do portador de necessidade especial”.

“É impossível caminhar pelo menos 500 metros nas calçadas de Brasília sem depender de outra pessoas para atravessar obstáculos” afirmou Neide Gonzaga, deficiente físico e associada do Movimento Luz. A rotina de um deficiente físico revela a situação caótica presente na mobilidade do DF. Como afirma Willy, o acesso para cadeirantes é colocado em segundo plano nas obras executadas pelo governo, quando na verdade a questão de acessibilidade deveria vir a ser prioritária.

Já existem leis que tratam sobre acessibilidade para cadeirantes em Brasilia, como por exemplo a lei 4.628 que institui o mapeamento de todos os pontos com limitações de acesso, contudo a realidade do Distrito Federal não reflete a teoria. José Cícero, que é cadeirante e presidente da Associação de Apoio aos Portadores de Necessidades Especiais e da Comunidade (ADAPTE), diz que “muitos quando chegam aqui [na associação] não sabem sobre as leis, mas com a rádio, com os programas, as atividades, eles começam a colocar em prática e a cobrar mais isso”.




Por: Kesley Pereira / Fonte: Governo do Distrito Federal. Dados retirados por associações.

Para sanar os problemas das comunidades no quesito mobilidade urbana, as administrações possuem recursos para atender as reclamações da sociedade. A administração de Taguatinga, por meio do assessor de comunicação Ariovaldo Vassão, expõe que “trabalhamos com três sistemas: temos a Ouvidoria dentro da administração, que recebe pelo telefone 162 ou presencialmente; a nossa fan page, que todos podem ter acesso e o WhatsApp […] vamos recebendo as demandas nas áreas de iluminação, rampas, adaptações de banheiros e procurando executá-las”

Uberlândia: Cidade Modelo

Diferente de Brasília, Uberlândia figura entre os municípios  com a melhor estrutura de acessibilidade do país. A Organização das Nações Unidas (ONU) considerou que a cidade está entre as cem melhores em acessibilidade no mundo.

“Uberlândia tem um trabalho de 20 anos em conjunto com a sociedade civil, conselho municipal da pessoa com deficiência e Ministério Público, a prefeitura tem uma diretoria de acessibilidade e mobilidade fundamental nessa questão […] E com os órgãos envolvidos, conselho, sociedade civil e MP há uma vigilância permanente. A cidade adotou a acessibilidade como coisa irreversível.” afirma o Diretor de Acessibilidade de Uberlândia, Idari Alves.

Uberlândia possui atualmente 50 lotações adaptadas para transporte a domicílio em áreas de difícil acesso, há cerca de 5000 rampas acessíveis em calçada e estima-se que 10 mil pessoas com deficiência foram inseridas no mercado de trabalho. Em torno de 70 mil pessoas foram beneficiadas com as adaptações de toda a cidade.

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