A vida por trás dos palcos

Amanda Freitas, Maria Luyne e Monicky Yuka

Amor, determinação e persistência são características que definem uma das danças mais admiradas pelo mundo, o ballet clássico. Criado no início do Século XVI (16), o ballet vem do latim “ballaré”, que significa dançar. Como tradição, exige postura, disciplina, harmonia, leveza, flexibilidade, técnica e diversas outras características que transformam o bailarino num artista completo no palco. Entretanto, o caminho é longo, árduo, doloroso e vai muito além da estética. São diversas dificuldades e desafios por trás dos palcos que transparecem a realidade dessa profissão. Além das dores musculares, físicas e o excesso de ensaios, o psicológico do bailarino também entra em jogo.

Foto para formatura da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (arquivo pessoal)

Natural de Porto alegre, Fernanda Ruschel é bailarina desde os 11 anos e atualmente é profissional formada pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Ruschel explica que as maiores dificuldades são as cobranças da profissão, tanto dos professores, diretores e coreógrafos, quanto a cobrança do próprio artista. A cada ano que passa, o processo de aperfeiçoamento técnico se desenvolve no bailarino, fazendo com que, em grande escala, haja a procura pela perfeição através de treinamentos mais intensivos e repetições. A busca pelo padrão perfeito é um dos pilares mais conhecidos da dança clássica. Ruschel afirma que já teve bastante problema para lidar com isso, mas hoje em dia tem buscado ajuda em psicólogos, livros e pessoas ao redor.

A estética, também, é um dos pontos mais fortes da performance no ballet clássico que, desde o princípio, traz consigo uma bagagem de muitas regras e estereótipos. O físico e a procura constante pela perfeição nos movimentos fazem parte da rigidez da profissão.

Murilo Campos segue carreira profissional de bailarino. Começou a dançar em 2010 e é formado pela Royal Academy of Dance, uma organização internacional de treinamento para bailarinos em diversos países do mundo. Segundo ele, as mulheres sofrem mais exigências, pois devem ser mais magras, ter linhas bonitas e flexibilidade. Uma realidade diferente dos homens, que necessitam de um porte másculo e forte para poder sustentar as meninas. Um exemplo é o famoso “pas de deux”, um duo entre dois bailarinos onde o rapaz precisa ser mais forte para segurar a moça, que precisa ser leve.

Murilo Campos para divulgação do ballet Paquita (arquivo pessoal)

Para o artista, a idade também é um grande empecilho. No caso de Campos, que começou a dançar aos 24 anos, é um tempo considerado tarde para o ballet clássico, pois essa é uma idade que grande parte dos bailarinos já estão quase parando de dançar para coreografar, dar aulas e não exigir tanto do corpo.

“Foi quando eu comecei. Então, para mim, a grande dificuldade de ingressar em uma companhia internacional ou uma nacional grande de nome e peso, é a questão da idade. Por exemplo, tenho que entrar em companhia que aceita bailarinos acima de 33. E é muito difícil de achar. Então acho que é a grande dificuldade”, explica.
Nas maioria das grandes escolas internacionais, quando os bailarinos são aprovados na audição de suas escolas, os estudantes passam por um processo de formação e estudo até cerca dos 20 anos. Quando se formam, tornam-se profissionais, e após isso procuram ser contratados em alguma companhia para agir seriamente na profissão. Assim como explica Campos, o desafio é algum diretor que aceite um bailarino acima dessa idade padrão, pois, infelizmente, na dança clássica há um mercado de trabalho limitado.

Essas limitações também incluem a pesada carga horária de ensaios repetitivos, a responsabilidade de exercer grande papéis e as exigências físicas da profissão. A busca pela performance perfeita e a técnica apurada requer um treinamento mais árduo, o que faz com que o corpo do bailarino se aposente cada vez mais cedo e acabe tendo lesões causadas pelo excesso de prática,. Campos, por exemplo, ensaia de domingo a domingo, até as 9 horas da noite e afirma que já deslocou o ombro duas vezes.


“Minha rotina gira em torno da dança. Eu dou aula para me sustentar financeiramente e quando não estou dando aula eu estou ensaiando algum projeto por fora. O ballet, cada vez mais, tende a pedir mais do corpo do bailarino, porque exige tanto e é uma carga tão puxada que o corpo não resiste. O corpo realmente fica todo destruído.”, explica.


Fernanda Ruschel durante aula de ballet na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (arquivo pessoal)

Antes de entrar para o Bolshoi, Ruschel participou de diversos festivais e competições. Ganhou prêmios como primeiro lugar e também de bailarina revelação. Participou como convidada do Festival de Dança de Joinville, um dos maiores do mundo, e recentemente viajou para os Estados Unidos em busca de audições para contrato.


Para obter seu sucesso, ela mantém uma rotina muito disciplinada, fazendo aula de ballet cinco vezes por semana, sempre focada em chegar antes para se aquecer ou ensaiar alguma coreografia. Ela afirma como a preparação do corpo é importante para a prevenção de lesões, muito comum entre os bailarinos. Um exemplo é seu próprio seu caso, que já torceu e quebrou o pé antes de sua formatura na Escola Bolshoi e com o tempo aprendeu a procurar métodos para se prevenir. “Eu faço de tudo para evitar lesões, porque a pior coisa para um bailarino é ficar parado por causa de lesão. Já me lesionei algumas vezes, já torci o pé, já quebrei o pé, mas agora eu trabalho muito para que eu não me machuque mais. Respeito muito meu corpo e minhas limitações”, conta.


Apesar de tantas as horas de ensaio, ficar até tarde no estúdio, acordar cedo e recomeçar a rotina todos os dias, Ruschel trabalha para cuidar de sua mente e do corpo, já servindo de base para ter grandes planos para o futuro. Como sonho de qualquer bailarino, ela procura um lugar onde busque a evolução da mente, espiritual e física.

Fernanda Ruschel como solista no repertório Chopiniana. Reprodução: Youtube

Cada vez mais, a bailarina busca ajudar as pessoas dando workshops, criando conteúdos na internet e cursos para aqueles que precisam de motivações. “Lá no Bolshoi, todos falavam que gostavam muito de conversar comigo por que eu sempre inspirava alguma coisa quando eles estavam desmotivados. E isso eu estou descobrindo cada vez mais em mim”, afirma.

Professora, coreógrafa e diretora Noara Beltrami
(arquivo pessoal)

Noara Beltrami fez parte da trajetória de Fernanda e Murilo. Ela é diretora, professora e coreógrafa de sua própria escola de dança, que já tem 15 anos. Atualmente é muito reconhecida no Distrito Federal, mas nem sempre foi assim. Com algumas dificuldades, conseguiu empreender seu próprio negócio. Ela era funcionária e professora em um outro lugar, até que decidiu abrir sua escola em Taguatinga, no ano de 2004.

Beltrami lembra das dificuldades que enfrenta até hoje. Manter uma escola de ballet funcionando no país, principalmente em Brasília, não é nada fácil. São diversos obstáculos enfrentados para sustentar a escola. São feitos trabalhos de divulgação, eventos, participações em campeonatos e apresentações. Segundo a diretora, a média de matrículas em ballet clássico por mês é cerca de dois alunos, mas a crise financeira acaba lhe tirando mais do que o esperado. O balé também é visto como uma atividade supérflua e extracurricular, pois não existe uma cultura que valorize a dança aqui no Brasil.

“As pessoas não têm ainda uma cultura tão forte para poder dizer: olha, eu quero que meu filho faça ballet. Normalmente é uma coisa que apertou financeiramente e você tira do ballet. As pessoas não têm um pensamento formado do quão é importante, culturalmente, para uma criança, um adolescente ou um jovem praticar algum tipo de arte”, finaliza Beltrami.


O ballet como profissão passa por muitos desafios para ser valorizado, principalmente na capital brasileira. Em 2018, foi posto em prática o projeto da companhia Balé da Cidade de Brasília, que não se expandiu por falta de recursos. Segundo Beltrami, os bailarinos da cidade poderiam crescer a vida profissional nesta companhia, porém acabam optando por seguir carreira em outros lugares, inclusive internacionais, por falta de oportunidades dentro do país.

O também professor e coreógrafo, Dhaniel Amaral, foi bailarino profissional de uma companhia da Nova Zelândia e voltou ao Brasil aos 18 anos de idade, quando começou sua carreira de professor. Na época, o mercado para bailarinos já era difícil e muito saturado, assim como hoje. Atualmente, ainda mantém a rotina de professor, que é bem diferente da rotina de um bailarino. O preparo físico também é distinto, pois o aluno precisa ter um preparo muito maior para alcançar os objetivos traçados pelo professor durante os ensaios, principalmente pela realidade cultural do país.

Professor Dhaniel Amaral (arquivo pessoal)

Segundo ele, o professor de ballet tem um papel fundamental para o bom desempenho de seu aluno. Treinar um bailarino para seguir carreira é saber que ser professor também é ser um espelho para seu aluno. Por isso Amaral leva o ensino como algo consciente e responsável, afinal, o que o aluno aprende irá ser aplicado na sala de aula e no palco. “A gente costuma dizer que um trabalho de formação de um bailarino depende 70% do aluno e 30% do professor. Eu vou conduzir esse aluno a dar o seu melhor na sua performance. Mas o sucesso desse trabalho depende muito mais do bailarino”, explica Amaral.


O ballet exige do corpo do bailarino em todos os aspectos: psicológico, físico, técnico, artístico ou estético. Para ingressar no mercado de trabalho, o bailarino precisa preparar um bom currículo, fotos, vídeos e encarar audições. Entretanto, é uma tarefa difícil para a grande parte dos artistas brasileiros. Amaral, assim como Beltrami, afirma que a valorização da profissão no Brasil é a parte mais complicada de todo o processo, mas não é impossível. “ Um bailarino na nossa realidade que quer seguir isso como profissão dentro do nosso país, a dedicação dele tem que ser um pouco maior. Ele precisa se preparar muito, ter disciplina, uma boa base, um bom professor e um bom método. O bailarino precisa saber o que quer, precisa de objetivos e principalmente saber onde quer chegar’, finaliza o professor.

A rotina de um um dançarino clássico é de aula, aquecimento e ensaio todos os dias. Exercícios em barra, centro, diagonal e no chão, assim como aula de música, pas de deux e de outras técnicas também fazem parte do preparo. O bailarino precisa estudar aquilo que vai ser apresentado e estipulado durante um certo período da temporada da companhia. Por isso, a dedicação individual é fundamental para o sucesso em sua carreira.

Ainda que o Brasil não seja uma potência e não tenha uma cultura que apoie o ballet, ainda há grandes nomes que inspiram a profissão, como Ana Botafogo, Cecília Kerche e Deborah Colker. O ballet, com o passar dos anos, também tem se tornado cada vez mais acessível. Diversas instituições, como a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, realizam projetos sociais e audições nas comunidades. Espetáculos e apresentações também entraram num cenário menos elitista e mais popular, como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que oferece ingressos de baixo custo.


Há o conhecimento de que a dança trabalha o melhor funcionamento e movimentações do corpo. Em excesso, pode trazer problemas futuros para o bailarino, principalmente quando há uma busca intensa da perfeição. Mas, apesar dessas barreiras, o amor à dança e à arte vai muito além dos calos nos dedos, das lesões e padrões.

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