A inclusão do público LGBTQ+ no mercado de trabalho: um procedimento que todo mundo ganha

Uma trajetória de preconceitos e discriminações que está tomando outro rumo

Hedy Tenório

O meio LGBTQ+ sofre preconceito e passa por muita homofobia, mas além
desses pontos existe algo que também é preocupante: o desemprego. O mercado de trabalho assim como para a sociedade ao todo, está passando por um momento difícil. O desemprego atinge atualmente 13 milhões de brasileiros, segundo dados divulgados em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da pesquisa Pnad Contínua.

Em Brasília, o desemprego é grande e para a população gay. Conforme a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN), no último trimestre de 2019, 20% das empresas brasilienses não contratam gays, lésbicas, travestis e transexuais em razão da sua condição sexual, 7% não contratariam gays em hipótese alguma e 11% só contratariam se a pessoa não ocupasse cargos de altos níveis. Para a pesquisa foram entrevistados mil empregadores em Brasília e entorno.

Dados gráficos disponibilizado pela CODEPLAN

Bianca Alves, uma mulher trans que é uma youtuber brasiliense relata a dificuldade em ter um emprego pelo simples fato de ser trans. “Para eles não importa se você tem curso e se você é formada, contratando a gente, parece que vamos assustar seus clientes”, afirma Bianca. A youtuber ainda diz que muitas meninas LGBTQ+ depois de tantos “nãos”, elas acabam trabalhando em empregos que elas não gostariam de estar, como maquiadoras, cabeleireiras e até prostituição.

A prostituição é um ponto forte a ser tratado, pois é um meio dos gays e trans conseguirem seu sustento, mas correm o risco de serem assaltadas, violentadas e até mortas, como já foi demonstrado em várias outras matérias disponíveis na mídia. “[Eles] Te negam um emprego pela primeira vez, segunda vez e até que na terceira vez faz você ter coragem de se prostituir”, conclui a youtuber.

A youtuber Bianca Alves falando sobre trans no mercado de trabalho

Lee Brandão é brasiliense e a primeira drag portadora de necessidades especiais do país. Ela participa de paradas gays por toda o país e apresentações em locais voltadas para o público gay. Lee diz que o público gay não quer um espaço específico para trabalhar, um mercado de trabalho exclusivo, mas sim inclusivo. “O que precisa ser feito, é observar o nosso grande potencial, pois também somos cantoras, médicas, arquitetas, e não apenas cabeleireiras ou atendentes de lojas em shoppings”, indaga Lee.

Em pró-LGBT

Para um cidadão conseguir um emprego nos tempos de crises, tem que estar bem qualificado, como ter um bom currículo, nível superior correspondente com a vaga específica ou experiência na área. O conselheiro fiscal do Instituto Amizade (ONG que reúne projetos na busca pela garantia de condições para a vivência plena de LGBTs em Brasília e entorno), João Marcos Carvalho, afirma que o mercado de trabalho convencional para os homossexuais não é mais como antes. “Generalizando, antigamente o trabalho de um gay era clichê: cabeleireiro, bailarino, vendedor de loja, dentre outros, mas hoje temos gays na política, na saúde, na educação, no entretenimento, em todos os lugares”, diz Marcos.

Dados da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Distrito Federal (SEJUS-DF) de 2018, apontam que a renda média dos homossexuais brasilienses está acima de R$ 3.000,00. “Essa classe configura um cenário onde há melhor escolaridade, maior interesse à cultura como livros, museus e cinemas e também grande parte ocupa boas posições no mercado. Desta forma, o grupo ocupa um espaço de pessoas críticas, exigentes e que possuem dinheiro para investir e consumir”, completa a auxiliar administrativa da Secretaria, Kátia Cilene.

Algumas empresas menores já trabalham com outra visão, pois entenderam o momento em que é vivido atualmente: o público gay é grande e está chamando atenção. Letícia Fernandes é o perfil da mulher moderna. Com 26 anos e mãe de um casal de crianças, já é a dona do seu próprio negócio. Em seu estúdio e escritório de fotografia localizado no Guará, ela faz questão de contratar apenas LGBTQ+. “Tenho um atentende gay, e dois fotógrafos, um gay e uma lésbica. E de longe foi a melhor decisão que já tomei na minha vida profissional, pois as experiência que tive com funcionários héteros não foram das melhores”, disse Letícia. Ela ainda completou dizendo que o comprometimento de sua atual equipe é bem maior do que seus ex-funcionários.

Voltando para a nossa drag queen, Lee Brandão deixa um ponto: “Um mercado diversificado é ainda algo novo quando se tem um homossexual gerente e não como vendedor, um médico e não um auxiliar de enfermagem. Está engatinhando ainda, mas pelo menos já estamos deixando nossas marcas, nossos nomes”.

Lee Brandão, a primeira drag queen do país fazendo uma apresentação em um evento LGBTQI+ em Brasília

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