A cultura da produção de cinema no DF

Amanda Freitas, Maria Luyne e Monicky Yuka

O Brasil vem crescendo a cada ano nas produções cinematográficas. Nos anos 1990 a média de filmes produzidos era de apenas um por mês e atualmente são produzidos cerca de 150. Além disso, as salas de cinema triplicaram nos últimos 25 anos. Já no Distrito Federal, há uma média de 10 longa-metragens por ano e a tendência é aumentar, pois a produção está cada vez mais frequente e a as exibições em larga escala estão aumentando e recebendo premiações nacionais e internacionais.

Dados: Ancine

Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine) no ano de 2018, o público em salas de exibição no Brasil foi de 161 milhões de pessoas, com um recuo de 11,2% em relação a 2017. Esse é o segundo ano consecutivo de queda dos filmes estrangeiros. Já dos filmes brasileiros, apresentaram um crescimento de 34,4% em relação ao ano anterior. As obras brasileiras voltaram a ultrapassar a marca de 20 milhões de ingressos vendidos, o que só havia acontecido nos anos de 2010, 2013, 2015 e 2016

A produção no df

O Distrito Federal é um polo promissor no campo audiovisual. Para especialistas, Brasília é responsável pela terceira maior produção audiovisual do Brasil e apresenta todo o ano o Festival de Cinema de Brasília para premiar as categorias de curtas de longa-metragens do país. Mas mesmo assim, o ramo ainda apresenta dificuldades.

Mostrar a realidade das cidades satélites são características de alguns filmes de Brasília por se tratar de uma capital com foco econômico e político. Segundo a agente cultural, roteirista e estudante do 5º semestre de cinema, Giulia Carneiro, as produções são inspiradas no contexto local das cidades satélites do Distrito. “A gente tem uma pegada bem documentária do DF e acho que contamos histórias para as pessoas que não conhecem o entorno, principalmente o povo do plano piloto”.

Carneiro já participou de alguns curtas e longas-metragens como continuísta e produtora de vídeos, mas hoje se define como agente cultural. Ela ainda não dirigiu nenhum filme, mas tem experiência em sets de filmagens e diz que quanto mais experiente, mais será reconhecida e mais poderá contribuir nas produções brasilienses. Segundo ela, Brasília é um lugar de pessoas talentosas e a capital abriu as portas para sua carreira. Como toda evolução, o cinema está se expandindo, mas que ainda há dificuldades pelo caminho. “Eu acho que cada vez mais Brasília tem muita cultura, não só na área de cinema, na música, na dança […] mas ela ainda está longe de ser uma capital cultural do país.” Para a estudante, o cinema da capital pode melhorar abrindo portas para a diversidade no mercado de trabalho, como produtores e diretores negros, indígenas e público LGBT.

Lino Maury Braz é gaffer (técnico responsável pela execução da luz do filme) e assistente de fotografia. Ativo profissionalmente na área de cinema desde 2008, já trabalhou como produtor, cinegrafista e tem uma bagagem de filmes autorais universitários. Para ele, a experiência é a maior diferença entre a sua primeira produção e a última. Nesse tempo, aprendeu a melhorar a técnica e trocar conhecimentos com pessoas mais experientes. Coisas que eram muito difíceis há alguns anos atrás, tornaram-se mais fáceis com a tecnologia de hoje.

Lino Maury Braz como Video Assist

Estar por trás das câmeras é por um pouco de si na produção do filme, segundo Maury Braz. “É um trabalho artístico, e fazer um filme é se expressar. Por mais que a história não seja a história da sua vida, cada detalhe que está sendo colocado tem um pouco de você e de cada um da equipe. […] Me sinto melhor atrás das câmeras, onde posso imprimir na tela um pouco de mim.”

O gaffer afirma que há um incentivo através do FAC (Fundo de Apoio à Cultura) que conserva uma média de boas produções de filmes por ano. Porém, acrescenta sobre as dificuldades com as produções locais: “Ainda acho que são verbas pequenas e ainda temos muitas limitações sobre o aspecto financeiro e às vezes faltam produtos específicos para fazer alguns tipos de produções, principalmente de roteiro” relata.

Imagem: arquivo pessoal

“O cinema me proporcionou curiosidade. Acredito que o público local do DF precisa valorizar o que se tem de curta e de longa aqui em Brasília” diz Júlia Mendonça, estudante de Artes Cênicas na Universidade de Brasília e está começando sua carreira como atriz.

A artista iniciou os estudos de teatro em 2015, quando se apaixonou e decidiu cursar a área. A partir disso começou a fazer cursos de cinema para se aprofundar, e já participou de quatro curtas-metragens na capital. Entre eles “O Mistério da Carne”, de Rafaela Camelo, que foi exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e selecionado para o Festival Sundance, que acontece todo ano nos Estados Unidos.

Portanto, o cinema trouxe para Mendonça uma nova visão do estudo audiovisual: “Estar na frente das câmeras não foi muito fácil.” Tudo parece intimidador, mas aos poucos foi se interessando cada vez mais por essa arte. Para ela, o cinema se baseia em detalhe e entrega.

A artista pretende continuar os estudos nessa carreira, acredita que há de aprender muita coisa. Defende que o cinema tem muito a ensinar, principalmente para o público do Distrito Federal. “Porque são coisas boas e que precisam ser vistas. Acho que falta essa valorização. É ir ao teatro, ir assistir cinema, porque tem. A gente sabe que tem. Não acessível, mas podemos buscar acessibilidade”, afirma.

O Festival de Brasília de Cinema Brasileiro já teve a sua 51ª edição e acontece todo ano em setembro, no Cine Brasília. É o mais tradicional evento do gênero no país, e disponibiliza diversos pontos de exibição, participação, atividades, oficinas, seminários e eventos para todos os interessados na área: produtores, participantes, profissionais e futuros talentos. O festival também recebe crianças e escolas públicas, além de dar diversos prêmios e fazer ligações com o mercado de trabalho.

O evento ainda circula por outras regiões da capital com atividades formativas e com o Cinema Voador que promove sessões ao ar livre no Paranoá, na Estrutural, em Brazlândia, em Samambaia e no Gama.

Solenidade de premiação do Festival de Brasília/Arquivo/EBC

Festival Taguatinga de Cinema

Desde 1998, com o intuito de promover ações culturais descentralizadas do plano piloto e também de desenvolver o audiovisual na região administrativa de Taguatinga – região de efervescência cultural – surgiu o Festival Taguatinga de Cinema. O festival promove o encontro de realizadores e promove diversas ações formativas. Este ano, contempla sua 14ª edição, são 21 anos de cinema na periferia do Distrito Federal para divulgar, exibir e debater os caminhos abertos pelo cinema, contribuindo para a formação crítica e o diálogo entre o público, os filmes e os realizadores.
Janaína André, a coordenadora geral do evento, fala sobre a importância do FTC “O festival exerce uma grande importância enquanto formador de público e formador de opinião na medida em que oferece uma plataforma democrática de acesso a filmes fora do circuito comercial que tocam temas extremamente importante para a cultura nacional, tais como questões de gênero, cultura popular, política, questões delicadas que incluem preconceitos que devem ser superados além de muitos outros temas relacionados a etnias e assuntos pouco abordados em outros veículos e festivais”, explica.

Imagem: divulgação do Festival

A coordenadora explica ainda que o FTC não é apenas um festival que acontece só uma vez no ano, ele tem grande relevância para a cultura local. “Queria adicionar que o FTC também é um produtor e disseminador de conteúdo à medida que nossa página oferece notícias relacionadas a nosso conceito norteador, produzimos notícias que são exibidas no site e jornal impresso e agora criamos um canal no youtube – Tarape TV – que exibe uma gama de programas e entrevistas com produtores culturais” acrescenta.

O festival encerrou suas inscrições para curta-metragem no dia 31 de março. O evento acontecerá de 7 a 10 de agosto de 2019, no Complexo Cultural Teatro da Praça, em Taguatinga – DF. Para mais informações, clique aqui.

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