A capital de todos os sons

A geografia do Distrito Federal retratada em canções

Por Laís Rocha

A música sempre foi um ponto forte do Planalto Central. Berço de artistas consagrados da música brasileira a cidade foi o ponto de partida na carreira de muitos e consequentemente seus ambientes foram inspiração para várias canções. Artistas como Cássia Eller, Ney Matogrosso, além de membros das bandas Legião Urbana e Capital Inicial podem não ter nascido na cidade, mas todos descobriram a música no mesmo lugar.

Fundada em 21 de abril de 1960 Brasília teve o auge da sua juventude em pleno os anos 80. Anos depois o rock se tornou tão símbolo da cidade quanto sua arquitetura e suas paisagens, o gênero musical apresentou o cerrado para todo o Brasil e não se limitou apenas às ruas, tesourinhas e quadras do centro de Brasília.

Foto: Laís Rocha

Difícil encontrar alguém que não conheça a história de Eduardo e Mônica. O popular casal da cidade de Brasília surgiu na canção escrita por Renato Russo e tocada pela banda Legião Urbana. A popularidade foi tanta que uma praça no famoso Parque da Cidade, palco do primeiro encontro do casal na canção, foi batizada com o nome dos dois e conta até com um monumento em homenagem a eles. Ali do lado do parque a banda Capital Inicial retratou a plataforma da Rodoviária do Plano Piloto na canção “Música Urbana” no verso “As ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel por toda a plataforma você não vê a Torre” é descrita a plataforma superior que liga a Rodoviária a outros pontos da cidade, que dá vista à Torre de TV.

Fechando a tríade do rock brasiliense nos anos 80 os garotos da Plebe Rude também levaram as ruas do centro de Brasília ao resto do país. A canção que leva o nome da cidade descreve as árvores, os prédios, os servidores públicos, o tráfego linear e principalmente a polícia. Parte do álbum de estréia O Concreto já Rachou, lançado em 1986, é um dos maiores sucessos da banda e rendeu ao grupo um disco de ouro. Não é à toa que se tornou impossível não relacionar Plebe Rude à cidade de Brasília.

Vanda Márcia caminhava por todos esses cenários diariamente. Fã de carteirinha do rock brasileiro desde o começo acompanhou as bandas de perto. Reconhecer os locais que passava no caminho ao trabalho em canções talvez tenha sido o ponto que ela mais se identificou. 30 anos depois ela nem se lembra ao certo como tudo isso começou. Mas faz questão de deixar claro, seja gritando nos shows ou comentando em todas postagens de seus artistas preferidos, está com o rock desde os primórdios.

Ainda no planalto a música “Dezesseis” também da banda Legião Urbana narra a história de Jhonn Roberto. O rapaz dirigia seu Opala metálico azul pelas ruas da capital e participava dos famosos pegas – corridas de carro que eram populares na cidade pelas pistas largas e favoráveis para tal ato considerado ilegal atualmente – que na canção acontecem na Asa Sul, no Lago Norte, na UnB e no CASEB, um Centro de Ensino localizado na Asa Sul. O fim da história – e de Jhonn Roberto – acontece à cerca de 25 km do centro de Brasília, na cidade de Sobradinho, onde em um acidente de carro João Roberto (nome verdadeiro de Jhonn) acaba perdendo a vida.

Vídeo mostra um registro dos típicos pegas/rachas nas ruas da cidade

A imaginação do compositor, Renato Russo, não se limitou ao centro da cidade. A extraordinária canção “Faroeste Caboclo” emplacou as paradas de sucesso como um dos maiores sucessos da Legião Urbana. Ao longo dos seus 9 minutos de duração ela narra a história de João de Santo Cristo que saiu da Bahia rumo à capital do país. Em sua trajetória ao chegar no Distrito Federal foi trabalhar em Taguatinga como aprendiz de carpinteiro, por influência de um primo e pela ganância entra no mundo do crime e começa a comercializar drogas na Asa Norte indo revender até em Planaltina, limite entre Distrito Federal e Goiás. A história acaba com João, sua amada Maria Lúcia e seu rival, o traficante Jeremias, morrendo todos na cidade de Ceilândia.

Ainda nas Regiões Administrativas (R.A) do Distrito Federal outra história de amor virou canção. Com letra de Renato Matos, que conquistou prestígio sendo cantada por artistas como Leo Jaime e Cássia Eller, “Um telefone é muito pouco” conquistou as rádios e o gosto popular dos candangos contando a história de um rapaz morador da Asa Norte que se apaixona por uma moça que mora na cidade do Gama. A angústia e o sofrimento do rapaz que mora longe da amada é retratada nos versos e o telefone é mostrado como uma das únicas maneiras de aproximar os quase 40 km que separam o casal. Vale lembrar que lançada em 1986, bem longe da era digital, a música retratou a realidade de muitos casais que não contavam com a quantidade de tecnologias existentes atualmente para encurtar distâncias.

Por coincidência quem também morava no Gama, como a moça da canção, é Vanda. Aliás até hoje ela mora na mesma cidade. São mais de 30 anos, quase o mesmo tempo em que ela conheceu o rock.

Belga de nascimento, brasiliense de coração. Essa é a definição que mais agrada Eduardo Dutra Villa-Lobos, o Dado. Com o sobrenome conhecido herdou do tio-avô, Heitor Villa-Lobos, o gosto pela música e fez parte de uma das maiores – se não a maior – bandas de rock do território nacional. A Legião Urbana vendeu mais de 30 milhões de discos durante sua carreira e foi responsável por mostrar a outra cara da cidade de Brasília ao resto do Brasil. Crescer e passar pela adolescência na cidade foi significativo para a banda onde todos os membros praticamente cresceram juntos nas ruas do centro de Brasília, isso tudo é refletido nas letras das canções.

Arthur Brenner e Gabriel Pasqua fazem parte da nova geração de Brasília. Agradecem o fato da cidade abraçar todos os gêneros, inclusive da banda Alarmes, a qual eles fazem parte. Reconhecem a herança deixada pelo auge da era de ouro do rock brasiliense, mesmo fazendo algo diferente. O fato é que tanto quem nasceu depois da era de ouro do rock brasiliense quanto quem viveu de perto aquilo que as músicas narram compartilham o mesmo sentimento: a admiração e a satisfação de ouvir lugares tão próximos.

Seja aos 50 ou aos 20 anos o rock ainda é significativo na cidade. Mais que isso, o estilo musical ainda encanta e acompanha a vida de muitas pessoas.

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